Viver sozinho/a: aquilo que ninguém vos conta

Já há muito tempo que disse que viver sozinho tem a peculiaridade de a maior vantagem ser igual à maior desvantagem: chegar a casa e não estar lá ninguém.

Ora, chegar a casa e não ter ninguém à nossa espera é maravilhoso. E porquê? Por mil e umas razões. Porque podemos fazer o que nos apetecer quando nos apetecer sem ninguém para criticar. Comer o que queremos, às horas que queremos (e só se quisermos), (des)arrumar tudo à nossa maneira, deitarmo-nos só quando apetecer, demorar horas no banho, deixar a louça por lavar, entrar em casa com mais um vestido primaveril padrão floral sem ninguém questionar nada. Fazer o barulho que queremos à hora que queremos (dentro dos limites legais, entenda-se), receber apenas quem quisermos e quando quisermos (adeus tias-avós-em-quadragésimo-grau que aparecem sempre quando nos apetece passar a tarde no sofá a relaxar de meias e roupa interior e uns episódios de Keeping Up with the Kardashians), sair de casa e voltar apenas quando nos der na mona e não ter ninguém a perguntar por onde andámos. Viver sozinho é a liberdade, é a independência, é a autonomia, é o nosso maior sonho de adolescente tornado realidade!

Mas chegar a casa e não ter ninguém à nossa espera também é desolador. E porquê? Por todas as razões que mencionei acima, mas vistas pela negativa. Não há ninguém para nos pôr na linha quando estamos obviamente a descambar e por isso o nosso auto-controlo tem de estar no nível máximo. Finalmente a palavra autodisciplina começa a fazer sentido e percebemos porque os nossos pais passavam tanto tempo perdidos em tarefas domésticas – é que uma casa dá trabalho a cuidar. E viver sozinho é trabalho do duro. De repente os fins de semana já não são fins de semana mas sim dois dias integralmente dedicados a trabalhos domésticos. Aqueles que eram dias de farra e de dolce fare niente, de repente são dias de aspirar, engomar, lavar e cozinhar. E a sexta-feira – dia de farra máxima – passou apenas a ser o dia da semana em que já não há nada no frigorífico, o congelador está vazio, e a nossa roupa toda no cesto para lavar. Excelente.

Depois há aquela coisa chamada solidão. Sim, de vez em quando a solidão aperta, e se pensaram que quando fossem morar sozinhos a vossa casa iria estar cheia de amigos, desenganem-se. Os vossos amigos têm outros planos e vocês têm de arrumar a loiça e preparar a marmita com o almoço do dia seguinte. Saíram de manhã à pressa deixando a cama por fazer, um trail de roupa espalhada pelo chão da casa de banho, a loiça do pequeno almoço em cima da mesa da cozinha, tiveram um dia de merda no trabalho e agora que chegaram a casa, ninguém cozinhou a vossa sobremesa favorita e a loiça do pequeno almoço continua no sítio onde a deixaram. De repente, viver sozinho deixou de parecer tão divertido. Ou será?

A resposta a esta pergunta quase retórica é um diplomático depende. Depende do que pretendem da vida e da pessoa que são. Viver sozinho, para algumas pessoas, não resulta Para outras, é espectacular. Por todas as razões mencionadas no segundo parágrafo e outras mil e duzentas. Porque a solidão é relativa e estar sozinho não significa necessariamente estar só (um cliché, mas os clichés são assim por serem verdade!). Porque a liberdade implica disciplina e bom senso e respeito e uma série de outras coisas chatinhas mas vale tudo a pena porque a liberdade sabe tão bem. Porque a ideia de crescermos é conseguirmos definir cada vez melhor a nossa vida e viver sozinho faz parte disso. Porque o jantar pode não estar na mesa à nossa espera quando chegamos do trabalho mas o sossego da nossa casa aguardou por nós o dia inteiro. E porque viver sozinho continua, sem dúvida, a ser uma opção melhor que viver mal acompanhado.

Concordam?

Advertisements

Foi uma bela duma tarde de domingo…

…passada a registar facturas, como se não tivesse mais nada para fazer desta vida, e a chegar à bonita conclusão de que metade deste mundo gosta de fugir com o rabo às obrigações, e descobrir que o restaurante onde almoço semanalmente não se deve dar ao trabalho de pagar impostos porque nem uma única factura minha registaram desde janeiro. E agora levam lá com tudo que eu também gostava muito que me perguntassem se quero ou não pagar impostos, mas é pergunta que ninguém me faz.